Quarta-feira, Julho 08, 2009

deitei sem pele
na cama
o lençol era como
pólen desperdiçado

meu corpo devagar
esquentou
como tivesse sendo
cobiçado por carvão
em noites de inverno

senti um toque sem nome
e sem face
ao lado ela não havia
eu estava só e febril
com calafrios no corpo
e o coração a me apressar

mas fechei os olhos e me veio
eu me entreguei
a uma solidão já tão íntima
que faz o papel de meus amores
e desses qual eu jamais deixarei
de sonhar em renascer, e partir
sem antes deixar outro buraco em mim

antes do mundo terminar, quero voltar a ti.

Sábado, Julho 04, 2009

eu estou perdido
e você sabe que estou perdido
podia se apetecer de mim.

você também.

você está perdida

ao menos, você sabe onde está
ou no que se perdeu.

sabe, rosa?

eu ardo cada pêlo
os poucos que deus me deu
nesses sonhos interminados

- quanta indiscrição, espelho.

falei, em sonho, cavalgando um cavalo prateado.

sabe,
eu nunca montei um cavalo na vida.
sempre tive medo,
por um amigo que sentou numa cadeira de rodas
por uma queda desnatural
e eu sempre tive a imagem de seus pés petrificados
e sua coragem inabalável, quase mentirosa.
meu grande amigo, quanta verdade há em tua estrada.

sabe, rosa
inicialmente eu temia esse andar, como diriam os cambas
"peculioso"
entretanto
eu montaria seus pôneis,
o mais triste
ou maravilhoso,
é saber que isso você sabe e por isso não aceita
minhas mentiras sobre nosso amor.
talvez por achar que quando estou nu
mesmo vestido,
essa coragem me antecipa a vida
como uma respiração que é respirada
por alguma espécie de vida
alguns segundos antes de mim.

segundos depois, claro, eu respiro
mas você parece diferente
parece quase uma respiração de montanha
que carrega lava nas mãos
talvez seja o seu talento pra pintura
ou sua necessidade de fumar
eu também enfrento a escuridão,
o amor que sopra bandido em cada ouvido
este sou eu, diferente de ti.
a respeito da vida mundana,
é improfícuo, não nos resta dúvida
que

a beleza do ser é a mentira da humanidade.

mas a beleza da rosa,
a tua beleza, sem medo aunque amor
era diferente
quando penso nela
em seu corpo alvo
me desespero.
aos meus olhos vem
a minha primeira chegada ao rio,
eu era garoto que era,
dentro de um ônibus fétido e sentimental
eu não era nada além de um amontoado de sonhos
eu era sim a pequenitude em essência
querendo conhecer o tal amor que diziam vender
por ali
mal sabia o que queria eu
mas este amor, rosa, este amor singelo e dedicado
eu conheci sem precisar pagar mais que minha atenção
e minha sinceridade
por instantes sempre fui o dedicado
mas sem inteligência ou madurez,
neguei.

pela manhã, entre tosses e mágoas,
(recordações não matam mágoas)
eu chego ao mesmo lugar,
eu estou perdido.
por negar a verdade profunda
a verdade descaminhada
meus filhos,
eu não os tive,
suas roupas carregam meu cheiro
minha pele ansia a sua
os barulhos do dia a começar
seja lendo seus poemas impiedosos
escrevendo coisas ofensivas em relação a nós
ou simplesmente doendo o que tento esquivar
porque quando estive no inferno da sua droga
ressurgi como uma ave resistente à loucura
conversamos frente a frente,
trocamos carícias até nos despirmos naquela que foi
nossa primeira noite de redenção
quando eu estava doente e ninguém soube disso
você rezou e eu soube
sem saber por ninguém, nem por você
eu sempre soube rezar
mas naquela noite,
esqueci-me.

eu estou completamente perdido,
e você também
os pássaros seguem cantando,
não há motivo para mudanças
continuamos perdidos
e por grande ironia da vida,
vivos.

por fim, a canção canta exatamente a ti:

a novidade é encontrar a flor que possa recuperar o sabiá
que cantou antes de chegar o diabo na vila e desde que chegou subiu
naquela árvore que quase toca o céu como você sem anunciar
(sob as ondas dos teus sonhos)

eu estou perdido.

Terça-feira, Junho 30, 2009

quisiera poder olvidarte
y seguir.

Domingo, Junho 14, 2009

todos abrigados da chuva,
enrolados em nossos braços
a calma desesperada.

eu prometi que te escreveria essas linhas,
vê,
meu sangue ainda está quente
tece mais um manto
de gelo
sobre mim,
lembra mais uma vez
o carvão bege do
tato entre nós
que reluz mais que a própria luz.

um cigarro após o outro,
a brisa que entra atropelando
pela janela impossível de se fechar
seu convite ao meu olhar
o segundo de fugir de si
já se passam meses.

uma mala,
uma estação,
esquece esse velho par
de lentes riscadas
as fronteiras de você e eu.

foi hoje
e ainda assim eu me lembraria
como fosse
hoje.

eu,
você,
nós dois,
o beijo,
a cama
a chama compartilhada
a calma
desesperada.

hoje,
ainda hoje.

Terça-feira, Junho 09, 2009

há quantos anos estamos perdidos nesse romance? (II)

que está vivo, amor que se divide e redime
como fosse um pincel ante a tela sem tinta
eu sei e você já sabe, nós nos devemos
cada pedaço desses dias que aprendemos juntos

minhas mãos são alunas da tua cintura
minha vontade é ingênua, meu peito
está tomado, o ar que entra tem teu cheiro
e o desejo é inexplicável, quase entre-sonhos

e eu ainda fumo baseados, você segue bebendo
quantos novos amores nos invadiram os olhos
e estes eram somente entre você e este eu?

eu quero surpreender sua teimosia graciosa
pegar o trem com seus óculos e tuas malas
reconhecer-me em seu novo corte de cabelo,
voltar, me abrir, corar, recosturar esse amor

para que não nos deixe nunca mais.
há quantos anos estamos perdidos nesse romance?

que já acabou, amor que já jogamos na água
como se fossem pétalas murchas ao lago
você sabe e eu já sei, nós não devemos
já não nos incendiamos como dez anos atrás

minhas mãos já não cabem em sua cintura
meu fôlego não é suficiente, meu peito
está inchado, o ar que entra é sujo
e o desejo está inerte, quase entre-sonhos

eu já não fumo cigarros, você segue bebendo
quantos novos amores te invadiram os olhos
desde que você foi embora sem sequer me olhar?

eu quero surpreender essa teimosia dolorosa
pegar o trem sem meus óculos e sem nenhuma mala
desconhecer-me em um novo corte de cabelo,
deitar, abrir, fechar, costurar esse amor

para que não sangre nunca mais.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

we should fight no longer
we should fight no more
because we're like an ocean
but we ain't got no shore

you could have made it better
you could have made it slow
you could have made it sweeter, sweetheart
you could have let it grow

where i come from
there ain't no springtime
but hell on earth

we should drink another
case of sweet affair
we should smoke another
hour of midnight rain,

ol' rain, ol' rain, ol' rain

where i come from
there ain't no mermaids
but sharks at home

and i'm all alone.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

será que é tão difícil nascer o amor
por detrás desses teus olhos?

olha pra mim,
minhas mãos estão machucadas,
eu mal consigo te tocar,
mas ainda assim me deixa tentar
salvar mais esse sorriso,
mais essa troca de ares,
mais um beijo inadiável
entre você e eu.
pode colocar a mão no meu ombro,
eu estou de joelhos para te ouvir,
pois meus navios já não olham pro cais há muitos anos,
vamos tentar, vamos mudar nossos corações para sempre
assim como a pradaria ama as raposas que ali descansam,
e assim como seu corpo descansa em cima do meu.
se eu te dissesse tudo, tudo que passa aqui dentro
sem censura, sem grito de escândalo,
você me mataria
ou morreria de amores?

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Paco chegou pouco depois das quatro da manhã. Parecia alegre mas estava um pouco transtornado. Cheirando a álcool, não conseguia ouvir nada do que era dito, mas falava muito. Insisti que se acalmasse e afirmei que o entendia completamente. Ele não quis separar-se do violão, que era impróprio para o horário, alegando que ele e o instrumento eram um só e não podiam ser divididos. A cada idéia maluca que ele começava a monologar, risadas tomavam o ambiente tamanha a loucura das coisas que ele dizia. Arfava, tocava um acorde e desandava a falar novamente. Mostrou-nos o cartão do local onde estava, uma casa de tolerância. Disse que havia conhecido o dono e planejava uma festa de arromba no local. Foi em direção à cozinha e voltou trazendo o velho bong vermelho. Em apenas uma pipada, encheu o corpo de cânhamo e a mente de mais sonhos obtusos e estéreis. Foi então quando Julius me olhou e falou com os lábios sem emitir nenhum som:

- Júlia e ele não estão mais juntos.

Quando o dia amanheceu, ele chorou no metrô. Chegamos na costa ao meio-dia e não havíamos trocado mais nenhuma palavra. Fechamos os olhos diante das primeiras ondas e beijamos a maré, onde ficamos imóveis por alguns momentos que pareceram três eternidades. Morreu no mar às 16h45 e nunca mais foi visto.

Ás vezes penso o que teria acontecido se eu tivesse ido com ele. Às vezes nem me importo com o que teria acontecido. Ontem pensei que deveria ter ido.

Só é necessário uma quantidade de amor para não enlouquecer antes de descansar. Que acalmem-se os diabos mais sombrios, que enfraqueçam as inquietações mais perversas, que estejam brandos os valores compreensíveis, que deste inferno venha a vitória gloriosa trás brutal esforço e paixão. Apenas sete mortes hão de matar-nos e se ainda assim for, nosso espírito retornará a viver em nossos antigos apartamentos e livros. Nada morre, nem a rosa marcada pela vida nem o espinho levado pelo mar. Hoje eu estou indo, e retornarei.

Terça-feira, Maio 12, 2009

Tenho ficado muito surpreso com a minha intuição, pressentimento ou simplesmente o poder da mente, não sei certo o que é isso que me ocorre

mas ontem eu pensei nelesintoparedes a fechar-me
e ele apareceu

eu nunca saberei exatamente o peso disso sobre mim e isso talvez é o que mais me dói.
se dói?

já não sinto.

porque as melodias que soam deste lado do rio nunca foram tão humildes e nunca nos deixou com os olhos tão molhados. eu mesmo, agora, tenho vontade de chorar tamanha a felicidade que tem sido essas canções. vou cantarolar toda a minha alma, essa noite.

o velho violão chegou de viagem,
júlio o trouxe.
ele, que foi o primeiro em que dedilhei
voltou a soar.

como nós, meu passado
e eu te amo.

Sábado, Maio 02, 2009

"forgiving sonnet"


i left a woman waiting for me
at the right side of the wall
she was carrying a book of poems
and her hair was as black as the sky

i left that woman a-waiting for me
at the left side of the main avenue
we'd been lovers years ago, yes, we'd been
and her eyes were expectin' that old-new love

but i was called, an emergency ran
through my tired fingers across the city
and i went to visit another woman, her name was rose

she had no black hair and no poems,
but paintings and the fairest kinda love,
and i will never visit another woman again.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

a primeira coisa que eu descobri é que ela me fazia mais feliz do que eu era.
depois, descobri que ela me fazia rir como uma criança. depois as carícias, o beijo, o colo, o sorriso proibindo-se de ser contido. seguiram-se as mãos sem esmalte, os pés cheios de dengo e uma vontade maior e maior de estar ao lado dela.

(seu jeito me faz desmoronar).

ela me perguntou, por fim, se eu a amava. ri sem jeito, virei o rosto, não consegui explicar que nada daquilo tinha a ver com amor, ou que simplesmente era o amor nascendo de baixo para cima e somente por isso, não devia ser questionado. era zelar pelo seu café-da-manhã, almoço e jantar. era esvaziar os cinzeiros para que você não ficasse alérgica. era acreditar, ter esperança em alguém.

vê só?

não consegui desprender-me do tempo passado ao falar de quem me faz tremer dentro do peito. ao chegar em casa, desci do táxi e mandei as favas essa minha preocupação a respeito disso que eu estou sentindo. acho melhor pensar que ela me faz mais feliz do que eu sou.

(O amor que cura nasce de baixo para cima).

Terça-feira, Abril 28, 2009

soneto da calma inesperada

*para garcia lorca e para você.


pé ante pé, pisei a calma inesperada
quase rindo, já não podia crer.
as mãos cheias de bolhas de tanta alegria
minha voz trêmula ao cheiro da carícia,

inesperada, tamanha a beleza
tamanha a tristeza e a lágrima
que é essa imensa felicidade
quando nos toma de assalto como hoje.

as fugas da mente, seu coração
há de ser só são e quente
como sua nuca nos meus joelhos

pois seca tua fronte, teus espelhos
vão refletir somente a sua coragem
(e o cheiro de couro se confundiu).

Terça-feira, Abril 14, 2009

esses poemas não foram escritos para ninguém.

Segunda-feira, Abril 06, 2009

#1 - a sudestada.

eu estou no meio do caminho.

eu ando em passos deselegantes, por medo. eu tento viver histórias de amor, mas eu as mareio, coloco tudo a perder. chegou aos meus ouvidos, por amigos próximos, a notícia que estariam preparando uma arapuca para mim. limpei o revólver, coloquei as calças justas e saí em direção ao grande elevado, com minha arma nada afetaria meu couro crispado e meus passos silenciosos na metrópole. era como andar de taxi no país estrangeiro, relembrando estar ali - somente por não ter estado ali.

fiquei dois dias bêbado entre a rua oscar thompson e a alameda general jardim.

#2 - a recaída

eu estou carente das pernas.

eu sabia que era a hora. todos estavam ali, com suas melhores roupas. fotografias eram disparadas a cada segundo e então daniel rabinovich disse do palco - alguém gostaria de se apresentar? - imediatamente subi as escadas e monologuei sobre a obra "djoa y djoy - los mariachis de la beise", de fochesatto y custodio. ao finalizar com a famosa frase "la marijuana une a los amigos, la concha los aparta", fui ovacionado não somente pelos cambas, mas também por collas y benianos.

tremi a cintura por saber que é impossível que fiquemos juntos novamente.

#3 - o amanhã

(to be continued).

Quinta-feira, Março 26, 2009

subo as escadas rapidamente.

acabei de receber a notícia, por telefone. parece que meu coração vai sair do peito. tristeza profunda tristeza. o problema é que estou atrasado para a reunião mais importante dos últimos vinte anos. quem me espera é gaúcho, a madre superiora.

meu pensamento se confunde em todo e cada segundo, entre as pilhas de lenços e relatórios de contabilidade ilegal, ela agora tem um novo rapaz, eu hei de ter outra também, preciso despachar as comandas das vendas de livros de ácaro.

ela de repente
ficou distante
eu sou velho demais
pra estar velho

eu de repente
saí porta afora
a vontade crescente
de recomeçar.

a primeira missão foi cumprida
e eu ainda te amo

(aunque ya no estaremos juntos).