Quinta-feira, Outubro 29, 2009

quando eu senti
eu vi
era garoa
quase não se via
mas se sentia
ou quase não se sentia
mas via
quando os olhos
ficavam cheio de sol

eu tinha muito dinheiro no bolso
me delegaram a tarefa
de pagar as contas do condado
então quando fui flagrado pelos marginais
contando as notas
tive muita calma
e me lembrei dos ensinamentos
e sentimentos de vallegrand
quase me tornei geraldo
só que sem o bigode

voei no pescoço do primeiro
discursei sobre malandragem e fé
para os demais
quando usei o dialeto, por fim
me respeitaram e me libertaram
com as notas ainda escondidas no bolso
eles não me levaram nada
além de mim

se ainda pudesse trocar com eles
dinheiro por paz n'alma
eu trocaria tudo
eu preciso fugir da vida, essa
eu preciso encontrar julio e ver o mar
precisamos nos salvar

vem
coração
vai
amor

eu nunca acreditei no dinheiro mesmo
só queria mesmo era parar
domar o verme que habita meu ventre
com seus dentes e lâminas
eu sou o filho daquela garoa
meu pai está chorando lá em cima
porque viu que eu continuo aqui
com a mesma dor e confusão
e a mesma vontade de morrer
com as mesmas palavras batidas
e o mesmo andar desavisado
esperando o dia de morrer

sobre os chistes, é só uma maneira
de sorrir diante da morte
e de passar por cima dos restos de terra
arrancados de mim
e de ti.

quando tomaremos a estrada
dos céus?

Domingo, Outubro 18, 2009

soneto da paciência


uma pedra cai, vinda do céu
meus olhos a seguem, fui
antes de ser eu mesmo, só
uma sombra a te esperar

um pardal voa, corta a visão
meus passos tropeçam, é
a decepção do sofrimento, sou
nada, depois dessa hora

e o verão se prepara, novamente
vejo que as tristezas ensinam
já não importa o que acontecerá

comigo, desde que me diga
o que quer de mim e na força
de meu corpo estarei, contigo.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

poema ao cansaço




cheguei na beira do riacho
quase a ponto de cair.

pensei só adormecer
de verdade,
sem medo de rastejar
os trezentos andares que caí
ontem a noite
em minha cama sombria
e quente

teus pés foram as almofadas
sua respiração foi
a primeira enchida de pulmões
ao arrepiar, aos calafrios
e tuas coxas
foram minhas companheiras
eu só sonhei estar contigo
sem pensar um só segundo
deixar-te.

mas eu sempre soube
que não estava pronto
para abrir meus pontos costurados
diante de ti

antes pudesse somente ir
(como os outros fazem)
porque já não consigo pensar
em dedicar-me algo além de mim
a qual já não me dedico.

quisera eu que fosse fácil
esquecer sua cintura alva
sua fragilidade irresistível
o amor nascido e crescido
e seguir
você sabe que
eu te colocaria em meus braços
novamente
mil outras vezes

vejo e leio por aí tantas coisas
elas me parecem muito a mim mesmo
e o jeito que eu costumava olhar
para o mundo

sinto como se cada vez mais tivesse perdendo
o contato com o resto
com a escrita
com a vida
com a música
com as frases que outrora enfeitaram,
causaram espanto
humideceram donzelas dignas
e horrorizaram as insensíveis
eu estou acabado
já fui um rapaz doce
hoje sou um homem amargo
eu deserdei os meus amados,
eu sou o meu próprio diabo
embora eu ainda carregue a doçura
dentro do coração

sinto cada novo dia como a prolongação
de uma enfermidade calada
ainda por se revelar diante de todos
e de mim
é só a pele escurecendo
por dentro
é o dia que arde as penas
sem voar

quando a esperança me acaricia
no fim de madrugadas solitárias
em que me perco dentro de mim
e das possibilidades cruas de hoje em dia
eu faço planos, sim
eu penso em abandonar tudo
e eu penso em voltar para mim
em vallegrand
no velho apartamento
e na velha esperança
de reviver o passado
eu resgataria o diamante branco
das mãos do médico
eu desligaria os ventiladores
e fumaria como um santo
eu voltaria aquele rio
e desaguaria novamente
(mas sem os fotógrafos
ou periodistas em volta).

inútil lembrança.
quando não me acaricia o corpo
de que vale?
como poderia eu
esquece-la?

tudo eu poderia, por outro lado
esquecer, olvidar, afogar
eu estava lá quando a maior chuva da história
varreu a cidade
eu não consigo conter as lágrimas, amigo,
é como beijar o asfalto com tua face
e a tristeza de todo um país
caída diante de mim.

não tenho dúvida de que muitos me compreendam
lhes agradeço
nos reconheceremos
enquanto tivermos isso
mas talvez ela não.
se,
se somente me aceitasse
como sou
como tento sobreviver
como luto contra mim mesmo
se.

hoje me sinto a beira de um lago
e o silêncio é meu descanso tardio
hoje sou um velho provérbio
que se perdeu em pobre tradução

ela não entendeu meu idioma.

do outro lado do rio cuyaba
é o nome
da mais nova canção que elegi
pra falar em meu nome.
escrevi perto da lareira, com júlio
e eu só queria conseguir transcrever os penúltimos versos
com a tua imagem,
a tua presença,
o teu perfume
e a necessidade de ter abelhas ao seu lado
(como os meus cabelos)
mas o caderno todavia jaz sem os versos
na verdade, tem apenas um risco e a linha provisória:

- ó meu grande rio, me leve então à madrugada final.

recusei a idéia de júlio, que insistia em cantar
algo sobre ter o coração enterrado.

eu me sinto roubando-me,
eu me sinto carregado,
eu tenho milhares de coisas para fazer
e lugares para ir
e trajes perfumados
e discursos para preparar
mas tudo que eu gostaria
era de ficar em casa para sempre
os carros seguem passando,
quando tenho sede, hesito em beber
mas eu ainda tenho o velho compromisso de deitar a fronte
para o descanso mínimo
e não conseguir descansar.

após um tempo impossível de ser medido
(dias, meses, anos)
o cansaço era tão grande
que não me importei em segurar mais a grade
eu queria somente fechar os olhos
e não pensar.

Sábado, Setembro 26, 2009

we walked the same streets till here,
our hands are full
our steps
our blind
and this
we did decide,
we did remain,
we sadly signed.

but tonight
i stare to the mount of the tide
and i know my thoughts
will rest fine
and her body, too.
there's nothing much else i could do

you see, it's all over you!
the saved ones
will be the ones
with blood in the hands
of peace.
not much else we do need.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

não existe abandono
que o amor não possa cuidar
teus braços foram os meus
tantas noites em que morri
em meu próprio abandono
mas vejo os teus olhos
sei onde devo ir
e ambos sabemos
o quanto de amor existiu.
se despeça de mim
sem venda nem mágoa
a estrada que nos leva hoje
nos trouxe um dia
e logo ao amanhecer
estar vivo não significará
mais que essa flor nas suas mãos
e esse vazio em meu peito.
poema à dor do recomeçar número 1
*para os meus companheiros y la plaza de mayo


agosto passou impune,
foi uma avalanche atrasada de dor
que só culminou suas fatalidades
nos primeiros dias de setembro

(no banco da frente, ao descer do táxi
era como se eu estivesse só
mesmo com dois de meus maiores amigos
ali. sim, eu estava só)

já tinhamos as notícias das perdas,
a moça e o rapaz,
ambos, é com muito respeito
e dor em um sentimento bondoso que digo,
já não estavam entre nós.

quando me desprendi da lucidez,
ao tirar os sapatos e fechar os olhos no colo de minha mulher
eu silenciosamente verti um conforto para eles
porque quando papai nos deixou no inverno
(e retornou na primavera)
foi muito difícil de acreditar tão cruel destino
havia sido sobre nós.

era como se o tempo não tivesse passado
ou tivessemos simplesmente
sonhando um sonho ruim
inacordável.

(ao bater o portão, me confundi
e ao iniciar meu peito uma taquicardia
um quase ataque de consciência
desnecessária
pensei que
não haveria remédio).

os novos dias virão
as páginas serão preenchidas
com a palavra do amanhã
espero na força da fé em si
acredito na alma
e na força das mãos que tocam
e se reconhecem

não existe mais
o ontem já não sou eu
olha pra si e só,
nada aconteceu.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

eu estou
em pedaços
minha fé cedeu
um dia após
o outro dia

acordei com as costas
riscadas de dor
quando não esperava
a desgraça
mas o inimigo feriu
minhas espaldas
sem dó
punhalando sua chama
direto em meu dorso

onde está deus, agora?

eu pulei os lagos
com um só salto
verti três lágrimas
uma para cada filho
escrevi sobre ela
por sete dias
e uma única noite

vi a ganância galopando
era um empresário
sem malas de companheiro
somente a vaidade
nas mãos e cigarro.

ouvi o choro da catarata
diante do injustiçado
aquele foi o choro
do menino jesus
velho.

voei aos altiplanos
fui ninguém além de mim
calquei na bondade
cada abrir dos meus olhos
fugi da vida
e da necessidade de ser um homem
desonesto.

diante do rio da provação,
tremi
acreditei ser muito moço
pra resistir a tamanha dor

de repente,
os amigos começaram a morrer,
de verdade
e até os anjos morreram
antes mesmo de viver
eu senti uma loucura raivosa
diante da vida, não podia ser
não era justo.
justo ela?

nada mais injusto que viver.

ajoelhei diante da escuridão de minha alma
em tamanho desespero, era difícil ver luz alguma
pensei até suicídio, seria talvez esse seu destino
cantarolei, em choro, uma melodia de mastropiero
e desabei.

a vida é um triz,
um pequeno risco, no vinil
um único cabelo branco
inoportuno
a vida é quase nada,
a vida é nada.
nada.
foi.

adormeci perto do rio,
meus pés congelaram
e de repente eu estava sem eles
e foi uma sensação de liberdade
finalmente acordar
e sentir-se pronto
para a maior guerra de todos os tempos.

já não somos jovens
sabemos utilizar os fuzis
carregamos junto nosso coração
sem uso mas ainda quente
nada mais nos será útil
a família que restar,
viva,
esta será nossa família

e assim será.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

nada é perigoso
quando eu aperto meus olhos
nem parou de chover
eu quebrei mais um dente

lá fora as vidas quase pulam o elevado
eu só escuto
bate a gota
fecha a porta
a dor que vem dos próprios
cabelos
desconhece a si mesma

e seus cães não me poderão tocar
não haverá lâmina para joão
ou antônio
cai frio mais um pedaço de ti
sobre a cidade
que acabou de nascer.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

i've got my light
and i've got my queen

this light
guides me through the night and
this queen
teaches me in the morning sea.

don't know anything about living life,

roads surround us
by the feet.
i place you
in this heart of mine.
i know what is good to me.
a minha janela fechada
eu observo
nunca passou o tempo tão rapidamente
sobre mim
sinto que uma voz está viva, sumariamente
viva
inquieta, chorando como fogo
uma melodia q'está presa
a melodia final

sinto como se fosse encontrar o alívio
a qualquer momento
seja na morte
ou na doença que dói
e essas dores chegaram
com malas incisivas
vieram de trem
vestiram seus melhores vestidos
esconderam-se em mágoas matinais
e dores lombares sem cessar
infusões mornas, duas vezes ao dia.

quando me toco
meu ventre se arrepia
eu me lembro dos cabelos dela
e de como ela se fixa diante de mim
quase uma cisma do destino, foi ela
minha inesperada clarividência
minha salvação cálida
minha santarosa de agosto
minha
meus olhos tremem por ti.

antes da refreada da dor
eu estive no inferno da mente
e o corpo agora me é prisão
para o ultramar e velhas ruas
veja, eu sou um homem bom
minhas mãos estão calejadas de amor
os diabos foram exterminados um a um
somente o divinizado quedou n'água
e agora você me pergunta pelas sementes, deus?
você é seu próprio diabo.
eu vim sem as sementes, deus
porque elas já estão na terra.

será que é tão difícil de ver, deus?

e agora me enche de ternura o peito
eu estou desconsolado
mal consigo fechar os olhos
mas logo ao chegar dos pássaros
os fecharei.

"sou o homem mais feliz do mundo
eu estou vivo hoje
e se ainda fosse só por hoje
já seria o suficiente".

tenho medo de não nos encontrarmos novamente.

Domingo, Agosto 16, 2009

soneto de aniversário
*ao segundo filho do pai.



para tua ausência pergunto,
onde andarás, mestre primeiro?
meus cabelos estão crescidos
meus caminhos abençoados

com força e fé segui cego, sem ti
sob orvalho pisei o céu e o mar
por anos tentei olvidar tua presença
eras a casa sem a porta da frente

mas senti tuas estradas alguns dias
pressenti os teus sonhos na quaresma
exercitei tua verve com lágrimas e paixão

hoje seja eu tua casa agora cheia novamente
seja minha voz teu choro reguardado
seja meu corpo o seu como fomos uma vez.
(para sempre).
soneto amoroso número dois.
*para el seis de agosto y el calendario maya


as mãos que nos tocaram antes de nós
elas nada sabiam, ó amada
nós, o que sabemos, minh'alva?
só me ocorre que não te permitirias ir

porque um dia houve noite longa cerrada
fui ante a neblina da estrada
encontrei-te, mas não reconheci
sobrevivi aos prantos minh'alma

o pão compartilhado ao amanhecer
da doação do calejado pedaço de pano
até as cascas de laranja sob os seus seios

ao entardecer, sê alimento a minha sanidade
na madrugada, acalenta minha loucura
e de manhã só fecha os olhos
(e me ama).

Segunda-feira, Julho 27, 2009

levarei eternamente dentro de mim o dia em que acordamos na casa de sua adolescência e sua mãe deu calmante ao cachorro para que ele não latisse para mim, o desconhecido. depois nos beijamos sentados no chão da varanda e demos as mãos, com os pés nus e com os primeiros sonhos na mochila. eu só conseguia olhar os seus seios e pensar que não havia outro lugar para estar além daquela varanda segurando as suas mãos bonitas. o beijo, a varanda, suas mãos bonitas. não acredito que o amor possa ser algo mais que isso. preciso voltar a acreditar em mim.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

deitei sem pele
na cama
o lençol era como
pólen desperdiçado

meu corpo devagar
esquentou
como tivesse sendo
cobiçado por carvão
em noites de inverno

senti um toque sem nome
e sem face
ao lado ela não havia
eu estava só e febril
com calafrios no corpo
e o coração a me apressar

mas fechei os olhos e me veio
eu me entreguei
a uma solidão já tão íntima
que faz o papel de meus amores
e desses qual eu jamais deixarei
de sonhar em renascer, e partir
sem antes deixar outro buraco em mim

antes do mundo terminar, quero voltar a ti.

Sábado, Julho 04, 2009

eu estou perdido
e você sabe que estou perdido
podia se apetecer de mim.

você também.

você está perdida

ao menos, você sabe onde está
ou no que se perdeu.

sabe, rosa?

eu ardo cada pêlo
os poucos que deus me deu
nesses sonhos interminados

- quanta indiscrição, espelho.

falei, em sonho, cavalgando um cavalo prateado.

sabe,
eu nunca montei um cavalo na vida.
sempre tive medo,
por um amigo que sentou numa cadeira de rodas
por uma queda desnatural
e eu sempre tive a imagem de seus pés petrificados
e sua coragem inabalável, quase mentirosa.
meu grande amigo, quanta verdade há em tua estrada.

sabe, rosa
inicialmente eu temia esse andar, como diriam os cambas
"peculioso"
entretanto
eu montaria seus pôneis,
o mais triste
ou maravilhoso,
é saber que isso você sabe e por isso não aceita
minhas mentiras sobre nosso amor.
talvez por achar que quando estou nu
mesmo vestido,
essa coragem me antecipa a vida
como uma respiração que é respirada
por alguma espécie de vida
alguns segundos antes de mim.

segundos depois, claro, eu respiro
mas você parece diferente
parece quase uma respiração de montanha
que carrega lava nas mãos
talvez seja o seu talento pra pintura
ou sua necessidade de fumar
eu também enfrento a escuridão,
o amor que sopra bandido em cada ouvido
este sou eu, diferente de ti.
a respeito da vida mundana,
é improfícuo, não nos resta dúvida
que

a beleza do ser é a mentira da humanidade.

mas a beleza da rosa,
a tua beleza, sem medo aunque amor
era diferente
quando penso nela
em seu corpo alvo
me desespero.
aos meus olhos vem
a minha primeira chegada ao rio,
eu era garoto que era,
dentro de um ônibus fétido e sentimental
eu não era nada além de um amontoado de sonhos
eu era sim a pequenitude em essência
querendo conhecer o tal amor que diziam vender
por ali
mal sabia o que queria eu
mas este amor, rosa, este amor singelo e dedicado
eu conheci sem precisar pagar mais que minha atenção
e minha sinceridade
por instantes sempre fui o dedicado
mas sem inteligência ou madurez,
neguei.

pela manhã, entre tosses e mágoas,
(recordações não matam mágoas)
eu chego ao mesmo lugar,
eu estou perdido.
por negar a verdade profunda
a verdade descaminhada
meus filhos,
eu não os tive,
suas roupas carregam meu cheiro
minha pele ansia a sua
os barulhos do dia a começar
seja lendo seus poemas impiedosos
escrevendo coisas ofensivas em relação a nós
ou simplesmente doendo o que tento esquivar
porque quando estive no inferno da sua droga
ressurgi como uma ave resistente à loucura
conversamos frente a frente,
trocamos carícias até nos despirmos naquela que foi
nossa primeira noite de redenção
quando eu estava doente e ninguém soube disso
você rezou e eu soube
sem saber por ninguém, nem por você
eu sempre soube rezar
mas naquela noite,
esqueci-me.

eu estou completamente perdido,
e você também
os pássaros seguem cantando,
não há motivo para mudanças
continuamos perdidos
e por grande ironia da vida,
vivos.

por fim, a canção canta exatamente a ti:

a novidade é encontrar a flor que possa recuperar o sabiá
que cantou antes de chegar o diabo na vila e desde que chegou subiu
naquela árvore que quase toca o céu como você sem anunciar
(sob as ondas dos teus sonhos)

eu estou perdido.

Terça-feira, Junho 30, 2009

quisiera poder olvidarte
y seguir.

Domingo, Junho 14, 2009

todos abrigados da chuva,
enrolados em nossos braços
a calma desesperada.

eu prometi que te escreveria essas linhas,
vê,
meu sangue ainda está quente
tece mais um manto
de gelo
sobre mim,
lembra mais uma vez
o carvão bege do
tato entre nós
que reluz mais que a própria luz.

um cigarro após o outro,
a brisa que entra atropelando
pela janela impossível de se fechar
seu convite ao meu olhar
o segundo de fugir de si
já se passam meses.

uma mala,
uma estação,
esquece esse velho par
de lentes riscadas
as fronteiras de você e eu.

foi hoje
e ainda assim eu me lembraria
como fosse
hoje.

eu,
você,
nós dois,
o beijo,
a cama
a chama compartilhada
a calma
desesperada.

hoje,
ainda hoje.

Terça-feira, Junho 09, 2009

há quantos anos estamos perdidos nesse romance? (II)

que está vivo, amor que se divide e redime
como fosse um pincel ante a tela sem tinta
eu sei e você já sabe, nós nos devemos
cada pedaço desses dias que aprendemos juntos

minhas mãos são alunas da tua cintura
minha vontade é ingênua, meu peito
está tomado, o ar que entra tem teu cheiro
e o desejo é inexplicável, quase entre-sonhos

e eu ainda fumo baseados, você segue bebendo
quantos novos amores nos invadiram os olhos
e estes eram somente entre você e este eu?

eu quero surpreender sua teimosia graciosa
pegar o trem com seus óculos e tuas malas
reconhecer-me em seu novo corte de cabelo,
voltar, me abrir, corar, recosturar esse amor

para que não nos deixe nunca mais.
há quantos anos estamos perdidos nesse romance?

que já acabou, amor que já jogamos na água
como se fossem pétalas murchas ao lago
você sabe e eu já sei, nós não devemos
já não nos incendiamos como dez anos atrás

minhas mãos já não cabem em sua cintura
meu fôlego não é suficiente, meu peito
está inchado, o ar que entra é sujo
e o desejo está inerte, quase entre-sonhos

eu já não fumo cigarros, você segue bebendo
quantos novos amores te invadiram os olhos
desde que você foi embora sem sequer me olhar?

eu quero surpreender essa teimosia dolorosa
pegar o trem sem meus óculos e sem nenhuma mala
desconhecer-me em um novo corte de cabelo,
deitar, abrir, fechar, costurar esse amor

para que não sangre nunca mais.