quando eu senti
eu vi
era garoa
quase não se via
mas se sentia
ou quase não se sentia
mas via
quando os olhos
ficavam cheio de sol
eu tinha muito dinheiro no bolso
me delegaram a tarefa
de pagar as contas do condado
então quando fui flagrado pelos marginais
contando as notas
tive muita calma
e me lembrei dos ensinamentos
e sentimentos de vallegrand
quase me tornei geraldo
só que sem o bigode
voei no pescoço do primeiro
discursei sobre malandragem e fé
para os demais
quando usei o dialeto, por fim
me respeitaram e me libertaram
com as notas ainda escondidas no bolso
eles não me levaram nada
além de mim
se ainda pudesse trocar com eles
dinheiro por paz n'alma
eu trocaria tudo
eu preciso fugir da vida, essa
eu preciso encontrar julio e ver o mar
precisamos nos salvar
vem
coração
vai
amor
eu nunca acreditei no dinheiro mesmo
só queria mesmo era parar
domar o verme que habita meu ventre
com seus dentes e lâminas
eu sou o filho daquela garoa
meu pai está chorando lá em cima
porque viu que eu continuo aqui
com a mesma dor e confusão
e a mesma vontade de morrer
com as mesmas palavras batidas
e o mesmo andar desavisado
esperando o dia de morrer
sobre os chistes, é só uma maneira
de sorrir diante da morte
e de passar por cima dos restos de terra
arrancados de mim
e de ti.
quando tomaremos a estrada
dos céus?
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Domingo, Outubro 18, 2009
soneto da paciência
uma pedra cai, vinda do céu
meus olhos a seguem, fui
antes de ser eu mesmo, só
uma sombra a te esperar
um pardal voa, corta a visão
meus passos tropeçam, é
a decepção do sofrimento, sou
nada, depois dessa hora
e o verão se prepara, novamente
vejo que as tristezas ensinam
já não importa o que acontecerá
comigo, desde que me diga
o que quer de mim e na força
de meu corpo estarei, contigo.
uma pedra cai, vinda do céu
meus olhos a seguem, fui
antes de ser eu mesmo, só
uma sombra a te esperar
um pardal voa, corta a visão
meus passos tropeçam, é
a decepção do sofrimento, sou
nada, depois dessa hora
e o verão se prepara, novamente
vejo que as tristezas ensinam
já não importa o que acontecerá
comigo, desde que me diga
o que quer de mim e na força
de meu corpo estarei, contigo.
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
poema ao cansaço
cheguei na beira do riacho
quase a ponto de cair.
pensei só adormecer
de verdade,
sem medo de rastejar
os trezentos andares que caí
ontem a noite
em minha cama sombria
e quente
teus pés foram as almofadas
sua respiração foi
a primeira enchida de pulmões
ao arrepiar, aos calafrios
e tuas coxas
foram minhas companheiras
eu só sonhei estar contigo
sem pensar um só segundo
deixar-te.
mas eu sempre soube
que não estava pronto
para abrir meus pontos costurados
diante de ti
antes pudesse somente ir
(como os outros fazem)
porque já não consigo pensar
em dedicar-me algo além de mim
a qual já não me dedico.
quisera eu que fosse fácil
esquecer sua cintura alva
sua fragilidade irresistível
o amor nascido e crescido
e seguir
você sabe que
eu te colocaria em meus braços
novamente
mil outras vezes
vejo e leio por aí tantas coisas
elas me parecem muito a mim mesmo
e o jeito que eu costumava olhar
para o mundo
sinto como se cada vez mais tivesse perdendo
o contato com o resto
com a escrita
com a vida
com a música
com as frases que outrora enfeitaram,
causaram espanto
humideceram donzelas dignas
e horrorizaram as insensíveis
eu estou acabado
já fui um rapaz doce
hoje sou um homem amargo
eu deserdei os meus amados,
eu sou o meu próprio diabo
embora eu ainda carregue a doçura
dentro do coração
sinto cada novo dia como a prolongação
de uma enfermidade calada
ainda por se revelar diante de todos
e de mim
é só a pele escurecendo
por dentro
é o dia que arde as penas
sem voar
quando a esperança me acaricia
no fim de madrugadas solitárias
em que me perco dentro de mim
e das possibilidades cruas de hoje em dia
eu faço planos, sim
eu penso em abandonar tudo
e eu penso em voltar para mim
em vallegrand
no velho apartamento
e na velha esperança
de reviver o passado
eu resgataria o diamante branco
das mãos do médico
eu desligaria os ventiladores
e fumaria como um santo
eu voltaria aquele rio
e desaguaria novamente
(mas sem os fotógrafos
ou periodistas em volta).
inútil lembrança.
quando não me acaricia o corpo
de que vale?
como poderia eu
esquece-la?
tudo eu poderia, por outro lado
esquecer, olvidar, afogar
eu estava lá quando a maior chuva da história
varreu a cidade
eu não consigo conter as lágrimas, amigo,
é como beijar o asfalto com tua face
e a tristeza de todo um país
caída diante de mim.
não tenho dúvida de que muitos me compreendam
lhes agradeço
nos reconheceremos
enquanto tivermos isso
mas talvez ela não.
se,
se somente me aceitasse
como sou
como tento sobreviver
como luto contra mim mesmo
se.
hoje me sinto a beira de um lago
e o silêncio é meu descanso tardio
hoje sou um velho provérbio
que se perdeu em pobre tradução
ela não entendeu meu idioma.
do outro lado do rio cuyaba
é o nome
da mais nova canção que elegi
pra falar em meu nome.
escrevi perto da lareira, com júlio
e eu só queria conseguir transcrever os penúltimos versos
com a tua imagem,
a tua presença,
o teu perfume
e a necessidade de ter abelhas ao seu lado
(como os meus cabelos)
mas o caderno todavia jaz sem os versos
na verdade, tem apenas um risco e a linha provisória:
- ó meu grande rio, me leve então à madrugada final.
recusei a idéia de júlio, que insistia em cantar
algo sobre ter o coração enterrado.
eu me sinto roubando-me,
eu me sinto carregado,
eu tenho milhares de coisas para fazer
e lugares para ir
e trajes perfumados
e discursos para preparar
mas tudo que eu gostaria
era de ficar em casa para sempre
os carros seguem passando,
quando tenho sede, hesito em beber
mas eu ainda tenho o velho compromisso de deitar a fronte
para o descanso mínimo
e não conseguir descansar.
após um tempo impossível de ser medido
(dias, meses, anos)
o cansaço era tão grande
que não me importei em segurar mais a grade
eu queria somente fechar os olhos
e não pensar.
cheguei na beira do riacho
quase a ponto de cair.
pensei só adormecer
de verdade,
sem medo de rastejar
os trezentos andares que caí
ontem a noite
em minha cama sombria
e quente
teus pés foram as almofadas
sua respiração foi
a primeira enchida de pulmões
ao arrepiar, aos calafrios
e tuas coxas
foram minhas companheiras
eu só sonhei estar contigo
sem pensar um só segundo
deixar-te.
mas eu sempre soube
que não estava pronto
para abrir meus pontos costurados
diante de ti
antes pudesse somente ir
(como os outros fazem)
porque já não consigo pensar
em dedicar-me algo além de mim
a qual já não me dedico.
quisera eu que fosse fácil
esquecer sua cintura alva
sua fragilidade irresistível
o amor nascido e crescido
e seguir
você sabe que
eu te colocaria em meus braços
novamente
mil outras vezes
vejo e leio por aí tantas coisas
elas me parecem muito a mim mesmo
e o jeito que eu costumava olhar
para o mundo
sinto como se cada vez mais tivesse perdendo
o contato com o resto
com a escrita
com a vida
com a música
com as frases que outrora enfeitaram,
causaram espanto
humideceram donzelas dignas
e horrorizaram as insensíveis
eu estou acabado
já fui um rapaz doce
hoje sou um homem amargo
eu deserdei os meus amados,
eu sou o meu próprio diabo
embora eu ainda carregue a doçura
dentro do coração
sinto cada novo dia como a prolongação
de uma enfermidade calada
ainda por se revelar diante de todos
e de mim
é só a pele escurecendo
por dentro
é o dia que arde as penas
sem voar
quando a esperança me acaricia
no fim de madrugadas solitárias
em que me perco dentro de mim
e das possibilidades cruas de hoje em dia
eu faço planos, sim
eu penso em abandonar tudo
e eu penso em voltar para mim
em vallegrand
no velho apartamento
e na velha esperança
de reviver o passado
eu resgataria o diamante branco
das mãos do médico
eu desligaria os ventiladores
e fumaria como um santo
eu voltaria aquele rio
e desaguaria novamente
(mas sem os fotógrafos
ou periodistas em volta).
inútil lembrança.
quando não me acaricia o corpo
de que vale?
como poderia eu
esquece-la?
tudo eu poderia, por outro lado
esquecer, olvidar, afogar
eu estava lá quando a maior chuva da história
varreu a cidade
eu não consigo conter as lágrimas, amigo,
é como beijar o asfalto com tua face
e a tristeza de todo um país
caída diante de mim.
não tenho dúvida de que muitos me compreendam
lhes agradeço
nos reconheceremos
enquanto tivermos isso
mas talvez ela não.
se,
se somente me aceitasse
como sou
como tento sobreviver
como luto contra mim mesmo
se.
hoje me sinto a beira de um lago
e o silêncio é meu descanso tardio
hoje sou um velho provérbio
que se perdeu em pobre tradução
ela não entendeu meu idioma.
do outro lado do rio cuyaba
é o nome
da mais nova canção que elegi
pra falar em meu nome.
escrevi perto da lareira, com júlio
e eu só queria conseguir transcrever os penúltimos versos
com a tua imagem,
a tua presença,
o teu perfume
e a necessidade de ter abelhas ao seu lado
(como os meus cabelos)
mas o caderno todavia jaz sem os versos
na verdade, tem apenas um risco e a linha provisória:
- ó meu grande rio, me leve então à madrugada final.
recusei a idéia de júlio, que insistia em cantar
algo sobre ter o coração enterrado.
eu me sinto roubando-me,
eu me sinto carregado,
eu tenho milhares de coisas para fazer
e lugares para ir
e trajes perfumados
e discursos para preparar
mas tudo que eu gostaria
era de ficar em casa para sempre
os carros seguem passando,
quando tenho sede, hesito em beber
mas eu ainda tenho o velho compromisso de deitar a fronte
para o descanso mínimo
e não conseguir descansar.
após um tempo impossível de ser medido
(dias, meses, anos)
o cansaço era tão grande
que não me importei em segurar mais a grade
eu queria somente fechar os olhos
e não pensar.
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