Quarta-feira, Dezembro 31, 2003

Minhas tias-avós preparam comidas extravagantes para o reveillon. Hoje é dia 31, meu leitor infame, e eu acabo de perder um pedaço de meu dedo na porta. Eu falava com uma garota e quando fui repreendido por uma resposta monossilábica, entrei em um êxtase movido a fúria e cansaço e enfiei o dedo justamente quando minha tia-avó fechava a porta para eu não me aborrecer com o barulho do liquidificador.

Gritei de dor por um instante e mandei Deus, este filho da puta, à merda. Porque certamente foi esse desgraçado que me fez ter esse acesso idiota que me tirou um dedo quase que por completo. Porém logo depois eu estava refeito com uma atadura colorida.

O meu otimismo salvou o dia mais uma vez, quando conclui que foi algo único. Deixando a ponta de meu dedo médio em 2003, este ano não será apenas mais um ano. Será sempre um ano que carregará uma parte de mim. Logo pensei que eu podia deixar um pedaço de meu corpo em cada ano seguinte. Não seria nada como cortar pulsos, orelhas, caralhos, olhos.. mas sim os mais belos e poéticos acidentes domésticos.

Dois mil e três foi cruel o suficiente para levar parte de mim.
Hoje eu e o Pardal nos abraçamos durante uma conversa sobre gatos sem máscaras, e tudo foi como três anos atrás, perto da geladeira. Nós discutíamos sobre o hábito estranho de não tomar coca-cola de um amigo em comum. Rememoramos essa noite, porque encontramos este amigo. Foi bonito.

Fizemos planos ambiciosos e divertidos como três anos atrás. Morremos de rir com bobagens e ele pagou um sorvete para mim. Não integralmente, mas contribuiu com alguns centavos. Aliás, o sorvete era barato, o que me lembrou do passado, onde você podia adoçar a boca com apenas alguns centavos. Eu me sinto viado demais escrevendo essas coisas, mas a verdade é que hoje foi uma noite foda entre dois filhos da puta. No caso, o Pardal e eu. Provavelmente eu não lembrarei dessa noite daqui uns meses, ou dias.. mas lembro hoje e por isso escrevo. Ele sorriu.

Uma hora ele acelerou e ultrapassamos um carro com uns quatro malandros, seguramente caretas, e eu não senti medo. Eu senti foi o abraço.
Fomos para o aeroporto. Na minha cabeça, tínhamos que pegar algum vôo. O pai de Beto, que tocava no violão aquelas antigas modas de viola, nos acompanhava amarrado no porta-malas. Certo momento quando passamos num quebra-molas, pudemos ouvi-lo cantarolar "Tillium Blue", antiga canção francesa.

Aeroportos são cheios de melancolia.. despedidas etc. Embora às vezes isso nos abalasse em alguns momentos, quando nos lembrávamos de velhas pessoas que um dia já se foram por aqueles portões e que nunca mais vimos, essa melancolia era rara no nosso estado. Estávamos realmente felizes, tomando água mineral. Meu velho amigo Pardal estava comigo e conversamos sobre o salto sem queda de Petit, e eu insisti nas visões de Johanna. Ele achou algo muito surreal para os moldes atuais, mas eu o lembrei que Kerouac nunca entrou em nenhum molde. Porque esse pessoal que classifica Kerouac como Beat são uns babacas. Geração Beat é o caralho!

Mas o momento mais insólito da noite foi quando, logo após um baculejo, Soberbio urinou na lataria do carro, e vomitou sobre nós depois de um tiro alongado.

Cheguei em casa com manchas brancas e não mais as velhas manchas verdes. Eram manchas brancas de colírios bem pingados! Liguei a TV e um sujeito de uns quarenta anos, falando de uma maneira passional, profetizou:

"Essa madeira precisa de um coração, que a umedeça.
E cheia de pó esperava em um canto; minha canção seca.
Será a cura para todo. Para todo o mal que não mereças.
Quem me dera ter a energia que existe em ti,
Para romper correntes.
Como se quebra o pavimento com o sol
E brota a terra fiel.
Como essas pedras perfeitas
Imaginar-nos velhos.
Sem vontade de voltar.
Sem vontade de voltar.
Sei que não esperas.
Sei que me esperas.
Sem vontade de voltar.
Sem vontade de voltar."

Quando desliguei a TV, apenas implorei por paz.

Terça-feira, Dezembro 30, 2003

"..y no seamos así tan violentos, pero tampoco tan dulces. Un recuerdo, una vida, una voz. Los flagelos deste pecho, que transforma todo lo malo en bueno. Conocí el dolor, no puedo decir que no. Pero también conocí muchas sonrisas y muchos pusieran sus sobre manos sobre las mías en entos años. Y cuando me preguntan del amor, prefiero cerrar mis ojos profundos y volver hacía mis sueños más oceánicos. Porque, papá, yo estoy cansado."

Achei este lamento démodé revirando gavetas velhas. É incrível como as pessoas mudam! Ou será que é a vida que muda? Eu mudei muito, e meu espanhol também. Não sei se pra melhor ou pior. De qualquer maneira, hoje vi uma foto estranha. Era uma praça antiga e todos estavam lá. O problema é que os vultos do além, aqueles que sempre aparecem nas fotos e que são mostrados em programas sensacionalistas e em sites idiotas, estavam por toda parte. Mas eu não conhecia nenhum deles. Ou talvez tenha conhecido em algum passado muito distante. Talvez em algum velho texto. Em espanhol. Rabiscos voando para todos os lados.

Agora só consigo ver nos meus olhos sonolentos as imagens do salto de Petit. Sem queda.
De todas as palhaçadas que já presenciei durante minha curta existência, algumas foram suficientes para que eu chegasse a uma conclusão: não é fácil ser um idiota. É muito comum um candidato à idiotice cair em baboseiras sentimentais, e aí ele deixa de ser idiota para ser um otário. E otários existem de monte, mas idiotas não! Eu poderia escrever em uma linguagem intelectual coisas idiotas sobre meus livros favoritos, mas eu não sou idiota o suficiente. E eu nunca li O Pequeno Príncipe. Não gosto de chanchadas pedófilas. E neste dia eu dormi amaldiçoando precocidades. E para concluir este tema: a idiotice é um dom mais raro do que a própria sinceridade.

O telefone tocou quando eram mais ou menos as nove e meia da manhã. Não atendi. Fui até o banheiro e lavei meu rosto na água quente. Voltei e escrevi num papel:

"O carro e os 2 se encontram"

Só fui acordar umas sete horas depois.

Segunda-feira, Dezembro 29, 2003

"Deixei hoje meu emprego. Agora sim vou viver de verdade". As frases de Maradona me encabulavam e traziam um sorriso sem graça. Mas eu gostava. Quando ele veio me chamar para a pescaria, eu realmente fiquei feliz. Aquela felicidade velha que eu encontrava nos meus velhos amigos. Não que eles estejam me ferindo agora, ou causando mal estar.. mas é que todos sabem.. já não é como antes. Pois bem, fui! Não tive preguiça, nem calor e nem medo. Foram os sorrisos mais dignos de toda a minha vida! Que minha vida estivesse naquele frasco de colírios mal-pingados, orquídeas vagabundas, e de medo. Medo! Esse que é o grande filho da puta do universo. Lembro-me também de terminar a maestria, cabendo a mim ditar quando seria o fim. E ditoso foi! Logo em seguida, ele me divertiu de um jeito malicioso, onde eu sentia o medo da criança, e não mais o medo jovial e, sejamos sinceros, da VIADAGEM.

A imagem do argentino refletida nos meus dentes, podres de carícias e perfumes! Senti-me como nos velhos tempos.. com minha boca afogada num mar de álcool, lodo e saudade. Ney está comigo agora, enquanto fala de seus amores piegas, mas de um jeito tão saudoso que eu não agüento e acabo cedendo, e ouvindo cada palavra. Queria poder chorar agora, pra deixar este relato mais dramático.. mas vocês sabem, a fonte secou. Anos e anos sem deixar cair uma lágrima, e o canal se secou. Talvez por falta de uso.

E o mais interessante foi que depois de todo esse disparate, cheguei à conclusão de que saudade é brega demais para este novo século, e então vim pra casa.
Quando eu entrei naquele carro cheio de adesivos sobre revoltas armadas, zapatistas e essas coisas tolas sobre revolução, eu me lembrei daquele meio-dia frio, mas cheio de sol. Charles estava comigo e nós tínhamos acabado de voltar de uma caminhada pela cidade, subindo e descendo escadarias, sendo vistos como dois turistas idiotas, que fingem ser malandros o suficiente para usar drogas em cidades estranhas. A paisagem tinha uma beleza incontrolável, que às vezes até me causava náuseas. Mas na maioria do tempo, o que eu sentia era uma liberdade real, e não aquela liberdade que a gente vê nos filmes, ou lê nos gibis. Aí veio um camareiro drogado e perguntou se eu tinha drogas. Respondi que não, mas obviamente ele não acreditou. Mas acho que depois de tudo, a impressão que ficou foi de que eu era um rapaz gentil.
Enquanto eu tentava inutilmente me desculpar pela ridícula atitude de tira-la do trabalho, com minhas conversas vaidosas e idiotas, ela mostrou O Dente. Era um dente diferente, com algo de vanguarda.. recheado e lapidado por um valor irrisório. Foi maravilhoso ver aqueles olhos brilhantes e aquele sol que nos causava um frio fudido. Sabe, cara.. às vezes eu acho que essas coisas nem aconteceram de verdade. É tudo tão surreal! Mas eu tenho que dizer que justo agora, neste exato momento, essas imagens tão doces e surreais soam apenas como uma lembrança remota.. mas você sabe, meu leitor bêbado, que eu gostaria de reviver isso. Foi aí então que eu a emprestei minha garrafa d'água, já quente, e ela disse:

- Você é pisciano? Eu.. bem, eu sou um touro.
- O Turista se queimou na chave do carro.
- O Turista sou eu.
- Minhas mãos estão verdes de colírios mal-pingados, que me incomodam tanto. Minhas celas de cinzas e douradas, de caralhos mal amados, cheios de malícia, no auge de sua força! Eu preciso de um cigarro urgentemente, seu pederasta forense.

E assim a noite começou, enquanto acendíamos aquela belezura. Deus já não fazia sentido, porque ele talvez tivesse se juntado a nós. Como Morrissey em I Won't Share You, eu saí de casa. O desbunde só não foi completo porque voltei logo em seguida. Cynthia di Biase disse ter sido, no mínimo, engraçado.

Arthur Hepburn roçou em minhas nádegas quase virgens. Confesso que não gostei, mas por questões de amizade pederasta, deixei e até simulei um estado de êxtase, no momento da pincelada.

Agora tento tirar as manchas verdes de colírios mal-pingados, que me incomodam tanto.